
“Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou é boêmio.”
Quem nunca viveu uma dor de cotovelo? O termo é definido pelo dicionário Aurélio como um substantivo feminino, um brasileirismo giriesco: ciúme ou despeito por motivo de amor. O que ninguém sabe é que quem criou o termo, foi o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, ou Lupe, como era chamado desde pequeno pelos familiares e amigos mais próximos. Este termo se referia, inicialmente, à prática comum nos bares, de alguém que, desiludido com o amor que perdeu, apoiava os ombros no balcão ou em uma mesa de bar e bebia para tentar afogar as mágoas.
Lupicínio Rodrigues nasceu em Porto Alegre, em 19 de setembro de 1914 e passou a infância ajudando em casa como vendedor ambulante, moço de recados (o boy da época) ou operário. Fez um curso profissionalizante de mecânico e saiu aprendiz de uma oficina de bondes. Já nessa época o guri era bom de bola, de copo e de samba. Cantava na Bandinha Furiosa e ainda ganhava alguns réis, apesar de ser no mínimo, 20 anos mais jovem que a maioria dos integrantes da banda. No carnaval, a bandinha mudava o nome para Bloco do Moleza, onde estreiou, aos 13 anos, o Lupe com sua marchinha – Carnaval. Era apenas o início de uma carreira que marcaria os rumos da MPB.
Lupicínio tinha três grandes paixões em sua vida: a música, o bar e as mulheres. O abandono pelas diversas mulheres que teve, foi algo recorrente, além das traições e decepções amorosas de todos os tipos que se possa imaginar. Ele buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos.
Compôs mais de 600 músicas, mas apenas cerca de 150 foram gravadas e editadas. As outras centenas que compôs foram perdidas, esquecidas ou estão à espera de quem as resgate. A música poderia ter convivido com tranquilidade com as outras duas paixões, mas as mulheres em sua vida jamais entenderam sua paixão pela boemia. Afinal, era na mesa de um bar onde, finalmente, Lupe conseguia unir suas maiores paixões.
Todos na família de Lupe tocavam ou cantavam. Porém, seu pai, ao perceber que a música para o filho não era apenas um hobby, tentou tirá-lo dessa vida, alterando a data de nascimento do filho para que ele fosse alistado como voluntário para o Exército com apenas 15 anos. Porém, em 1932, o soldado Rodrigues, fardado e tudo, assiste a um show dos Ases do Samba, grupo formado simplesmente por figuras como Noel Rosa, Francisco Alves, Mário Reis, Nonô e Pery Cunha que tinham ido ao Sul fazer uma excursão. Por obra do acaso, algumas horas depois, estava Lupicínio num bar com amigos fazendo música e quem chega? Os Ases! Eles acabam se enturmando e um pouco depois está o soldado Rodrigues mostrando algumas de suas canções aos bambas cariocas. O próprio Noel comenta: “-Esse garoto é bom, esse garoto vai longe!” E Foi mesmo. O Lupe foi longe. Lupicínio conseguiu fazer sucesso fora do eixo Rio-São Paulo, o que ainda é difícil nos dias de hoje e era muito mais complicado nos anos 30.
Um de seus maiores sucessos, Se Acaso Você Chegasse (com Felisberto Martins), foi gravado pela primeira vez por Cyro Monteiro, em 1938. A música ficou tão popular que Lupicínio foi para o Rio, onde estreitou laços com Francisco Alves, que gravou várias de suas canções, como Nervos de Aço (1947) e Esses Moços (1948).
Se Acaso Você Chegasse foi regravada em 1959 por Elza Soares e lançou a cantora no mercado com estrondoso sucesso. As regravações foram numerosas: Paulinho da Viola – Nervos de Aço, Caetano Veloso – Felicidade, Elis Regina – Cadeira Vazia, Zizi Possi – Nunca, Leny Andrade – Esses Moços e Gal Costa – Volta, são apenas alguns dos inúmeros exemplos.
Jamelão gravou dois discos dedicados à sua obra em 1972 e 1987, acompanhado pela Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo. Lupicínio participou ainda do V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1969 com a música Primavera que foi defendida por Isaurinha Garcia.
Todas as pessoas que um dia choraram e sofreram por amor, sem dúvida já ergueram um brinde a Lupicínio e cantarolaram um trecho com os versos tão marcantes de alguma de suas músicas. Tim-Tim! Que venham outras dores. Afinal a fossa também é inspiração! Já dizia Lupe: “Tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci.”
♪ Acenda um cigarro, prepare uma dose de uísque, ligue o abajur e boa audição!
Fossa • Podcast Tecnicolor
01 • Vingança – Linda Batista
02 • Meu mundo caiu – Maysa
03 • Segredo – Dalva de Oliveira
04 • Preciso aprender a ser só – Maria Bethânia
05 • Iracema – Clara Nunes
06 • A saudade mata a gente – Dick Farney
07 • Na batucada da vida – Elis Regina
08 • A primeira vez – João Gilberto
09 • Onde anda você – Vinicius de Moraes
10 • Fera ferida – Roberto Carlos
11 • Balada da arrasada – Angela Rorô
12 • João e Maria – Chico Buarque e Nara Leão
13 • Último Desejo – Olivia Byington
14 • Boa Noite Amor/ Fascinação /Doce Mistério de vida – Trovadores Urbanos
15 • O Ébrio – Vicente Celestino
16 • Como 2 e 2 – Gal Costa
Maria Clara Coelho