Dê play e leia ouvindo as músicas mencionadas no texto.

Capa do álbum American Pie, de 1971

Lançada em 1971 no albúm homônimo do cantor e compositor americano Don McLean, a música American Pie fala de uma série de eventos que marcaram a evolução da música americana durante a década de 60, marcada pelo movimento de contracultura, pelos movimentos anti-guerra e, na música, pela transformação do Rock’n Roll. Mclean, que cresceu influenciado pela música dançante e de temática inocente das origens do rock, do folk rock e do rockabilly dos anos 50, descreve essa evolução de forma bem pessimista. A história começa com o acidente de avião que matou Ritchie Valens, Big Bopper e, seu maior ídolo, Buddy Holly no final da década de 50. O dia do acidente, 3 de fevereiro de 1959, por causa da música ficou conhecido como “o dia em que a música morreu”.

O autor nunca esclareceu o significado dos versos, mas alguns símbolos são bem claros e não faltam teorias. Veja algumas das mais conhecidas.

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American Pie

A long, long time ago…
I can still remember
How that music used to make me smile.
And I knew if I had my chance
That I could make those people dance
And, maybe, they’d be happy for a while.

But february made me shiver
With every paper I’d deliver.
Bad news on the doorstep;
I couldn’t take one more step.
I can’t remember if I cried
When I read about his widowed bride,
But something touched me deep inside
The day the music died.

Musicalmente, a década de 50 nos EUA foi marcada por músicas alegres e dançantes, do bebop e do rockabilly, e por um renascimento do folk, que havia tido seu auge entre as décadas de 1920 e 1930. Tendo como ícone máximo Elvis Presley, os anos 50 foram marcados por diversos artistas como Chuck Berry, Little Richard, James Brown e Buddy Holly, que, apesar da curta carreira, é considerado um dos mais criativos artistas do período. A primeira estrofe de American Pie descreve o interesse de Don McLean pela música desde a infância, dando enfâse à dança e a alegria que ela causava da época, e a vontade de contribuir com o movimento.

Maria Elena Santiago e Buddy Holly no dia de seu casamento

Porém, em fevereiro de 1959, Don McLean, então trabalhando como entregador de jornais (único emprego que ele teve além de músico), soube da notícia da morte do seu ídolo e ficou bem abalado. A “noiva enviuvada” mencionada nos últimos versos se refere à Maria Elena Santiago, esposa de Buddy Holly. Eles se conheceram em junho de 1958 e Holly a pediu em casamento no mesmo dia. Maria Helena pensou que Holly estivesse brincando, mas eles se casaram dois meses depois, em 15 de agosto de 1958. Buddy Holly entrou em um período intenso de shows e morreu menos de 6 meses depois. Só então, muitos fãs, incluindo Don McLean, souberam que eles já haviam se casado. Maria Helena, grávida quando ocorreu o acidente, perdeu o bebê pouco tempo depois.

Para Don McLean, o impacto deste acontecimento e dos eventos ao longo da década seguinte, o fizeram considerar esse dia como o dia em que a música morreu.

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So bye-bye, miss american pie.
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singin’, “this’ll be the day that I die.
“this’ll be the day that I die.”

O refrão é recheado de referências americanas:

- o primeiro verso remete à expressão “tão americano quanto uma torta de maçã”, que significa algo “tipicamente americano”. Ao longo da década seguinte, a música americana foi muito influênciada pelo rock inglês e McLean considerava que o rock estava perdendo a identidade nacional. A fatia (de torta) americana, estava ficando cada vez menor.

- os carros da Chevrolet (Chevy) eram o típico carro americano das décadas de 50 e 60, depois que a GM venceu a hegemonia da Ford do começo do século. Nesse período, jovens americanos faziam festas em locais afastados dos centros para fugirem da forte repressão à bebida entre jovens, reflexo da proibição às bebidas alcoólicas das décadas de 20 e 30 (o estado do Mississipi só anulou a proibição ao álcool na década de 60!)

- as bebidas da festa na beira do rio são whisky e uma espécie de whisky de centeio, típicas bebidas americanas do período.

- os jovens que participavam da festa, bons e velhos, leais à música americana, cantavam a música That’ll be the Day, de Buddy Holly, que diz “You say you’re gonna leave, you know it’s a lie / ‘Cause that’ll be the day when I die”

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Did you write the book of love,
And do you have faith in God above,
If the Bible tells you so?
Do you believe in rock ’n roll,
Can music save your mortal soul,
And can you teach me how to dance real slow?

Well, I know that you’re in love with him
`cause I saw you dancin’ in the gym.
You both kicked off your shoes.
Man, I dig those rhythm and blues.
I was a lonely teenage broncin’ buck
With a pink carnation and a pickup truck,
But I knew I was out of luck
The day the music died.

Nessas estrofes, McLean sugere um relacionamento com uma pessoa que está se tornando fã do novo rock. Claramente tendendo para o velho estilo, ele a questiona sobre a música, a forma de dançar e os novos valores que os jovens estão adotando influenciados pela música. A música e os ídolos estão se tornando objeto de culto no lugar de valores que o autor considerava maiores, como a religião e a família. “Você acredita no rock? A música pode salvar a sua alma?”. A expressão “Book of Love”, faz referência a uma música gravada pelo grupo The Monotones que diz: “I wonder / Who wrote the Book Of Love?”. Gravada em 1957, ela representa tanto aos valores antigos quanto o velho estilo do rock americano.

A segunda parte mostra que ele, adepto do velho estilo, estava se tornando uma exceção. Ele já não sabia dançar e foi substituído por outro, com quem sua antiga companhia dançava o novo rock, mais agitado, mais psicodélico e sem os sapatos (hábito da época para preservar o chão de madeira dos salões de baile). McLean ficou sozinho com seu cravo cor-de-rosa e sua pickup e percebeu que não teria mais sorte, agora que a música que ele gosta havia se tornado fora de moda.

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I started singin’,
REFRAIN

Now for ten years we’ve been on our own
And moss grows fat on a rollin’ stone,
But that’s not how it used to be.
When the jester sang for the king and queen,
In a coat he borrowed from James Dean
And a voice that came from you and me.

Oh, and while the king was looking down,
The jester stole his thorny crown.
The courtroom was adjourned;
No verdict was returned.
And while Lennon read a book of Marx,
The quartet practiced in the park,
And we sang dirges in the dark
The day the music died.

10 anos depois da morte de Buddy Holly, o rock já havia se tornado bem diferente, influência, principalmente, das bandas de rock inglesas, representadas pela referência aos Rolling Stones, a reis e aos Beatles.

A principal figura dessas estrofes é o Bob Dylan, que começou sua carreira como cantor folk, mas mudou de estilo por volta da metade da década de 60, se adequando ao novo rock. Don MacLean, considerando isso uma traição, se refere a Dylan como o “bobo da corte”. Os primeiros versos também são referência à música Like a Rolling Stone, do Bob Dylan: “How does it feel / To be on your own / With no direction home / Like a rolling stone”

Comparação da imagem de James Dean em Juventude Transviada e da capa do álbum The Freewheelin', de Bob Dylan

O rei, como não poderia deixar de ser, é o Elvis, o Rei do Rock’n Roll e a rainha, Joan Baez, ambos símbolos do velho estilo musical. Foi Joan Baez, já emergindo como a Rainha do Folk, quem deu visibilidade ao trabalho de Bob Dylan no início da carreira ao gravar diversas composições dele. A menção à jaqueta do James Dean é referência à foto da capa do álbum “The Freewheelin’”, de 1963, onde Bob Dylan aparece usando uma jaquela que copia o estilo do ator no filme Rebelde sem Causa. Elvis, o ídolo máximo durante os anos 50, já havia perdido boa parte do prestígio e Bob Dylan se tornou o símbolo americano do novo Rock. McLean representou isso na música com o bobo roubando a coroa do rei.

Os últimos versos fazem referência clara aos Beatles e ao fato de que o rock, antes com temas leves e alegres, havia se tornado mais complexo e politizado, falando de comunismo, guerra e drogas (Lennon lendo um livro de Karl Marx). O parque é o Candlestick Park, em São Francisco, onde os Beatles (o quarteto) apresentaram o último show da banda, em agosto de 1966, e que marcou uma mudança radical na carreira deles e no rock do mundo todo. A música mudava cada vez mais e McLean lamentava.

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We were singing,
REFRAIN

Helter skelter in a summer swelter.
The birds flew off with a fallout shelter,
Eight miles high and falling fast.
It landed foul on the grass.
The players tried for a forward pass,
With the jester on the sidelines in a cast.

Now the half-time air was sweet perfume
While the sergeants played a marching tune.
We all got up to dance,
Oh, but we never got the chance!
`cause the players tried to take the field;
The marching band refused to yield.
Do you recall what was revealed
The day the music died?

Ainda fazendo referência aos Beatles, essas estrofes falam da confusão gerada pelos movimentos de contracultura do final dos anos 60. Os jovens, influenciados por seus ídolos do rock, fizeram diversos protestos contra a guerra do Vietnã e o alistamento obrigatório. O alistamento normalmente não é obrigatório nos EUA, mas é em tempos de guerra, como no caso da guerra do Vietnã, entre 1955 e 1975. Na música, a marcha, os sargentos e o abrigo nuclear remetem à guerra.

Helter Skelter, termo que significa desordem, simboliza esse momento confuso e faz referência à música de mesmo nome dos Beatles, do Álbum Branco, de 1968. O verão representa o movimento de rebelião cultural e político que juntou 100.000 pessoas em São Francisco durante o verão de 1967 e que ficou conhecido como o Verão do Amor. Em 1966, a banda The Byrds, os pássaros da música, lançaram Eight Miles High, música que fala sobre a cultura das drogas do período. Um trecho da música diz: “Eight miles high/And when you touch down/You’ll find that it’s stranger than known”.

Os próximos versos comparam os movimentos da contracultura anti-guerra com um jogo de futebol americano, com os jogadores como os músicos da época: Beatles, Rolling Stones, Byrds com o maior representante do movimento, Bob Dylan, como coadjuvante. Ele havia sofrido um grave acidente de moto em julho de 1966 e entrou em um período de reclusão física e mental que o fez parar de gravar por quase 2 anos. Agora, sem Dylan, até mesmo o posto de líder do movimento de contracultura deixou de ser americano, passando a ser exercido pelos Beatles, que abraçaram o movimento de paz e drogas. O doce perfume (da maconha?) que exalava enquanto os sargentos (o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band do Beatles foi lançado em 1967 e tem as drogas como tema principal) comandavam a marcha.

Joan Baez no protesto antialistamento de Oakland em outubro de 67, antes de ser presa

Incitados pelos ideais retratados nas músicas, os jovens americanos passaram do movimento pacíficos do Verão do Amor para confrontos violentos que começaram com os protestos à lei de alistamento obrigatório. No primeiro protesto relevante, em outubro de 1967, os manifestantes queimaram carros, bloquearam estradas e foram reprimidos com violência pela polícia. 40 pessoas foram presas, incluíndo a cantora Joan Baez. Os jogadores tentaram tomar o campo e recusaram-se a desistir.

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We started singin’,
REFRAIN

Oh, and there we were all in one place,
A generation lost in space
With no time left to start again.
So come on: jack be nimble, jack be quick!
Jack Flash sat on a candlestick
Cause fire is the devil’s only friend.

Oh, and as I watched him on the stage
My hands were clenched in fists of rage.
No angel born in hell
Could break that satan’s spell.
And as the flames climbed high into the night
To light the sacrificial rite,
I saw satan laughing with delight
The day the music died

A violência da nova geração musical chega ao ápice, perdendo os valores políticos da contracultura. Na música isso é mostrado retratando os eventos do festival de Altamont, que aconteceu em dezembro de 1969 e é o pior exemplo de movimento da geração dos anos 60 e contrasta brutalmente com o Festival de Woodstock, realizado apenas 4 meses antes.

Os primeiros versos descrevem os 300 mil frequentadores (todos em um mesmo lugar) do festival como uma geração perdida pelas drogas, sem os ideais iniciais da contracultura e que já não tinha mais como voltar atrás e tentar um bom caminho. O ágil Jack Flash, personagem da música dos Rolling Stones Jumpin’ Jack Flash, lançada em 1968, representa Mick Jagger. Para McLean, Jagger era o símbolo da nova música, já desprovida de valores, que apenas incitava os jovens à violência. Jagger é representado como o demônio, amigo do fogo.

Cena de violência do festival de Altamont em 1969

No festival, a gangue de motoqueiros Hells Angels (anjos nascidos no inferno) foram contratados pelos Rolling Stones (em troca de bebida gratuita, segundo alguns) para ficar em torno do palco e fazer a segurança da banda. Ao longo do dia, o grupo, cada vez mais alcoolizado começou a criar confusão com o público e iniciou uma onda de violência generalizada. O grupo Grateful Dead desistiu de se apresentar depois de saber que um dos membros da gangue nocauteou o vocalista da banda Jefferson Airplane durante a apresentação do seu show, o que aumentou ainda mais a violência. Os eventos culminaram com um dos Hell Angels assasinando um dos frequentadores a facadas (o rito de sacrifício).

Jagger, que diz que não ficou sabendo do assassinato até o final da apresentação, não interrompeu o show e é retratado como Satã, rindo de prazer ao cantar, logo após o incidente, Sympathy for the Devil, que possui os versos “Just call me Lucifer / ‘Cause I’m in need of some restraint”

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He was singing,
REFRAIN

I met a girl who sang the blues
And I asked her for some happy news,
But she just smiled and turned away.
I went down to the sacred store
Where I’d heard the music years before,
But the man there said the music wouldn’t play.

And in the streets, the children screamed,
The lovers cried, and the poets dreamed.
But not a word was spoken;
The church bells all were broken.
And the three men I admire most:
The father, son, and the holy ghost,
They caught the last train for the coast
The day the music died.

O final, num tom bem mais melancólico, fala da última esperança de McLean de restabelecer a velha música ao conhecer o trabalho de Janis Joplin, a garota que cantava o blues. Joplin começou sua carreira cantando blues e folk, o que fez com que McLean acreditasse que o velho estilo estava voltando a ter adeptos. Porém, em junho de 1966, Joplin se tornou vocalista da banda Big Brother and the Holding Company, banda que fazia parte do cenário psicodélico da época. Depois disso, Janis entrou num turbilhão de shows e drogas que levaram à sua morte prematura em outubro de 1970.

JP

As lojas de discos (a loja sagrada), já eram dominadas pelo rock atual e a velha música já não tocava. O cenário da sociedade era igualmente desanimador: gritos e choro, os antigos valores da família e da religião estavam perdidos, o sino das igrejas já não tocavam. Os últimos a aproveitarem a alegria e a inocência da década de 1950, que Don McLean considerava ideal, foram os 3 ídolos que morreram antes de ela acabar: The Big Bopper, o pai, que morreu antes de conhecer o filho; Ritchie Vallens, o filho, que morreu aos 17 anos e Buddy Holly, o espírito santo, seu maior ídolo.

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And they were singing,
“bye-bye, miss american pie.”
Drove my chevy to the levee,
But the levee was dry.
And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singin’, “this’ll be the day that I die.
“this’ll be the day that I die.”

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Como foi dito no início, apesar de algumas referências serem claras, o autor nunca esclareceu o real significado da música. A maior parte das explicações, portanto, são teorias criadas, completadas e alteradas por fãs e teóricos ao longo dos quase 40 anos da música, motivo pelo qual também as referências se perderam.

Há alguns anos, o site Straight Dope questionou o autor sobre o significado. A resposta de Don McLean está abaixo.

Caro Cecil,

Como você pode imaginar, através dos anos eu tenho sido solicitado muitas vezes para discutir e explicar minha canção “American Pie”. Eu nunca discuti a letra, mas admiti a referência ao Holly na estrofe de abertura. Eu dediquei o álbum American Pie a Buddy Holly também com o objetivo de conectar todo o relato ao Holly com esperança de levantar interesse sobre ele, o que subsequentemente ocorreu.

Isso me traz ao meu ponto. Casey Kasem* nunca falou comigo e nenhuma das referências que ele confirma como minhas foram feitas por mim. Você irá encontrar muitas “interpretações” da minha letra, mas nenhuma delas feita por mim. Isso não é divertido?

Desculpe deixar todos vocês por conta própria dessa forma, mas há muito tempo atrás eu percebi que compositores deveriam fazer os seus relatos e seguir em frente, mantendo um silêncio digno.

Don McLean, Castine, Maine

* radialista americano que disse ter obtido algumas explicações sobre a música em 1972

Denis Duarte