Diante da expectativa do discurso, o vazio acompanhado do som em murmúrios. No palco do espetáculo o título do livro, do filme, da cena e da vida que ali se reinventaria. Tudo se enquadra no mais perfeita ordem das etiquetas daquele universo. Nós, telespectadores, de acordo com a câmera, também ocupamos um papel na história; uma história marcada por um convite rasgado pela (im)pessoalidade com início, meio e fim.
A reflexão sobre as diversas interpretações do que consiste um objeto de arte, especialmente no que se refere a distinção entre a reprodução (cópia) e o original (fiel), são jogadas na tela como fonte da própria desconstrução da obra que se apresenta em forma de filme. Estamos diante, portanto, de uma obra em que a busca primordial é a própria tentativa de auto desconstrução. Afinal, quais são os critérios para a definição do que seja e do que não seja uma obra de arte? Em que momento podemos dizer que houve uma transfiguração de um objeto comum?
Em “Cópia Fiel” 1 podemos pensar sobre a arte a partir de inúmeras perspectivas. No entanto, é com Walter Benjamin que a discusão trazida com o filme me parece transcender os limites de um mero produto estético e toma corpo enquanto objeto também político 2. Se pensarmos junto com Benjamin, uma obra para que seja uma obra de arte possui em si mesma algo que a qualifica enquanto tal: uma aura. Para o filósofo, o conceito de aura é um elemento caro às obras de arte, pois é através dela, a aura, que podemos traçar a linha tênue que separa um objeto único, a obra de arte, das suas reproduções, as cópias. O instante em que passamos a precisar destacar essas diferenciações é marcada pelo momento em que as técnicas tomam corpo e são massivamente difundidas. Eis que surge a fotografia 3. A fotografia chega para marcar uma nova forma de percepção. Um novo olhar é instaurado no mundo e sobre o mundo e, com isso, a sensibilidade das pessoas também se modifica.
A arte, nesse sentido, perderia sua essencialidade manual, a de tentar reconstruir o que há ou projetar um novo olhar sobre o mundo, e se transporta para a tentativa de enquadramento ou registro do movimento. Nessa dialética entre imagem e movimento, acoplado ao som, no cinema, por exemplo, revela-se o surgimento de algo novo, como soma e fruto da tendência dessa percepção visual instantânea – a sétima arte. Sobre a perda da essencialidade que qualifica, segundo Benjamin, a obra de arte podemos destacar a seguinte passagem do autor:
“O conceito de aura permite resumir essas características: o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura. Esse processo é sintomático, e sua significação vai muito além da esfera da arte. Generalizando, podemos dizer que a técnica de reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra de arte por uma existência serial. E na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido”. 4
Conseguimos perceber, com isso, que Benjamin identifica um valor artístico acerca da autenticidade / unicidade, valor este não encontrado em cópias de obras artísticas. Tal questionamento pode ser visto claramente na cena do casal protagonista do filme passeando pelo museu ao ar livre em Florença. O filme, com isso, passeia, junto aos seus protagonistas, entre as discussões pertinentes à filosofia da arte, mas, sobretudo, ao universo formado por aqueles que atribuem qualquer tipo de valor as coisas, nós, as pessoas.

Walter Benjamin
Aqui a discussão sobre valor permeia a formas de expressão artísticas, mas também o contexto em que elas são encontradas e percebidas. Afinal, haveria uma realidade ou apenas o nosso olhar sobre ela? O que conseguimos perceber é o que há ou apenas fruto das convenções sociais, culturais que nos permitem enxergar até onde aprendemos a ver? Caso queiramos apostar na ideia de que somos sempre limitados por aquilo que somos e que, portanto, podemos ser até onde nossa dimensão corpórea e imaginativa permite que sejamos, ainda assim poderíamos nos inventar a cada instante e também inventar o mundo ao nosso redor. Pode ser, com isso, que tenhamos que suspender nossa tentativa de atribuir um valor intrínseco às obras de arte autênticas e, com isso, admitir uma indiferença entre o que foi o primeiro e a cópia deste. No entanto, na contramão dessa perspectiva, haveria uma outra possibilidade de perceber essa discussão: a tentativa de encontrar uma via que não nos distancia tanto do valor da coisa em si, ainda que não sejamos capazes de estabelecer um contato direto com as coisas, uma vez que somos banhados por diversos outros tantos elementos que nos formam constantemente. Dessa maneira, poderíamos nos perguntar sobre a possibilidade de admitir que os valores que repousam sobre as obras são relacionais? Ou seja, que uma obra de arte não precisa necessariamente ser atrofiada enquanto tal, mas sim a sua aura, se quisermos continuar com o vocabulário de Benjamin. Desta maneira, a percepção humana e a relação estabelecida entre nós e os objetos não precisariam se organizar apenas naturalmente, mas também historicamente. Admitindo isso, não haveria problema algum em identificar valores diferenciados entre obras de arte e suas cópias, entre as relações que estabelecemos com umas e outras pessoas. As relações e os valores daí extraídos seriam componentes importantes para nossa identificação e reconhecimento do que caracteriza uma obra de arte.
Destaco essa analogia entre os valores que relacionamos aos objetos de arte e aos relacionamentos humanos por uma razão bastante clara: a tentativa de transportar nosso olhar sobre a arte para a ideia de que a vida também é uma encenação, em algum nível, e que, por essa razão, ela é palco e nós, atores deste espetáculo. No filme, essa analogia fica ainda mais clara quando já não sabemos, se é que precisamos saber, até onde a realidade daquelas vidas se dá, até onde eles se camuflam em cenários e se reiventam a cada instante. Seriam essas invenções desprovidas de valor? Onde começa a realidade e onde termina a ficção?
Diante dessa configuração, podemos retomar a questão da autenticidade para as obras de arte, mas também para nós mesmos. Sentamos diante de um espelho e nos enfrentamos: somos aquilo que inventamos para nós mesmos ou somos o exercício de determinados muitos papéis sociais que simplesmente compramos? Em outras palavras, somos originais ou somos cópias?
O papel de Juliette Binoche me parece um convite à autenticidade. A personagem se enfrenta a cada tentativa de se reinventar. Talvez, seja nessa tentativa de não ser apenas um nome a ser comprado/adquirido pelo o outro como mercadoria que a personagem de Juliette não é nomeada durante todo o filme. Sem um título que a inscreva, resta a personagem ser fiel a ela mesma.
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Filmografia:
1. Cópia Fiel (Cópia Conforme). Direção: Abbas Kiarostami; 106min, 2010. (França, Irã, Itália)
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Notas:
2. Benjamin, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica em Obras escolhidas – volume 01, tradução de Sérgio Paulo Rouanet, prefácio de Jeanne Marie Gagnebin, 6ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1993, (título original: Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit)
3. Poderíamos adentrar em inúmeras discussões sobre a popularização da fotografia enquanto registro, modo de expressão etc., no entanto, para uma abordagem mais próxima ao filme me atentarei em discutir o processo fotográfico diante da abordagem de Walter Benjamin.
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Bibliografia:
4. Benjamin, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica em Obras Escolhidas – Volume I, tradução de Hemerson Alves Baptista e José Carlos Martins Barbosa, 7ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1994. (título original: Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit)
Fabio Oliveira